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quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Muitas ...


Dizem: quando nasce um bebê, nasce uma mãe também. E um polvo. Um restaurante delivery. Uma máquina de chocolate prontinho. Uma mecânica de carrinhos de controle remoto. Uma médica de bonecas. Uma professora-terapeuta-cozinheira de carreira medíocre. Nasce uma fábrica de cafuné, um chafariz de soro fisiológico, um robô que desperta ao som de choro. E principalmente: nasce a fada do beijo.

Quando nasce um bebê, nasce também o medo da morte - mães não se conformam em deixar o mundo sem encaminhar devidamente um filho.

Não pense você que ao se tornar mãe uma mulher abandona todas as mulheres que já foi um dia. Bobagem. Ganha mais mulheres em si mesma. Com seus desejos aumentam sua audácia, sua garra, seus poderes. Se já era impossível, cuidado: ela vira muitas. Também não me venha imaginar mães como seres delicados e frágeis. Mães são fogo, ninguém segura. Se antes eram incapazes de matar um mosquito, adquirem uma fúria inédita. Montam guarda ao lado de suas crias, capazes de matar tudo o que zumbir perto delas: pernilongos, lagartas, leões, gente.

Mães não têm tempo para o ensaio: estreiam a peça no susto. Aprendem a pilotar o avião em pleno voo. E dão o exemplo, mesmo que nunca tenham sido exemplo. Cobrem seus filhos com o cobertor que lhes falta. E, não raro, depois de fazerem o impossível, acreditam que poderiam ter feito melhor. Nunca estarão prontas para a tarefa gigantesca que é criar um filho - alguém está?

Mente quem diz que mãe sente menos dor - pelo contrário! Ela apenas aprende a deixar sua dor para outra hora. Atira o seu choro no chão para ir acalentar o do filho. Nas horas vagas, dorme. Abastece a casa. Trabalha. Encontra os amigos. Lê - ou adormece com um livro no rosto. E, quando tem tempo pra chorar - cadê? -, passou. A mãe então aproveita que a casa está calma e vai recolher os brinquedos da sala. “Como esse menino cresceu”, ela pensa, a caminho do quarto do filho. Termina o dia exausta, sentada no chão da sala, acompanhada de um sorriso besta.

Já os filhos, ah… Filhos fazem a mãe voltar os olhos para coisas que não importavam antes. O índice de umidade do ar. Os ingredientes do suco de caixinha. O nível de sódio do macarrão sem glúten. Onde fica a Guiné-Bissau. Os rumos da agricultura orgânica. As alternativas contra o aquecimento global. Política. E até sua própria saúde. Mães são mulheres ressuscitadas. Filhos as rejuvenescem, tornando a vida delas mais perigosa - e mais urgente.

Quando nasce um bebê, nasce uma empreiteira. Capaz de cavar a estrada quando não há caminho, só para poder indicar: “É por ali, filho, naquela direção”.

Por Cris Guerra.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Publicidade infantil

O único alimento infantil produzido pela natureza se chama leite materno. Depois do desmame, os pequenos passam a se alimentar com comida comum a todos os humanos. O que muda é o preparo. Legumes amassadinhos, papinhas de fruta, carne desfiada, mingau de cereal.

Em todos os tempos, em todas as culturas, sempre foi assim. Isto é, até chegar na nossa vez.

Os pais e mães de hoje convivem com uma realidade inédita na história humana. A “comida infantil” inventada pelo marketing da indústria alimentícia. Entra em cena um extenso cardápio de “alimentos” anunciados como práticos para a mamãe e mais aceitos pelos pequenos: sopa pronta, nuggets, bisnaguinhas, bolinhos, biscoitos, petit suisse, macarrão instantâneo, leite fermentado, lanches de microondas, sucos e néctares (em pó, concentrado e de caixinha), refrigerantes, preparados à base de leite, cereais matinais, achocolatados, salgadinhos, combos de fast food, embutidos etc. Isso sem falar nas balas, pirulitos e outras guloseimas.

Observe que nenhum desses produtos é invenção da natureza. Todos são criação da indústria alimentícia que calculou, sabidamente, que uma família consumiria mais se tivesse que comprar alimentos diferentes para os adultos e para as crianças. Isso se chama criar nichos de venda, segmentar o mercado consumidor.

A criatividade da publicidade torna tudo ainda mais confuso. Começamos a realmente acreditar que criança tem mesmo que comer comidas mais fofinhas, doces, coloridas, acompanhadas de brinquedos e personagens. E confiamos que essas comidas são seguras para darmos aos nosso filhos.

O problema é que esses alimentos costumam ser pobres nutricionalmente. Enchem barriga, mas não nutrem como deveriam um corpo em desenvolvimento. Pior ainda, atrapalham por serem ricos em aditivos, conservantes, sódio, açúcar, gordura e farinha refinada.

Resumindo, os alimentos que o marketing transformou em comida para criança podem fazer mal aos pequenos. Além de criarem péssimos hábitos alimentares que dificilmente serão abandonados na vida adulta. E hábitos ruins fazem um bem danado para o mercado de comida pronta.

Estudos hoje apontam que esse problema se torna ainda maior nas classes mais pobres. Com o aumento da renda, os pais estão sendo seduzidos pelo doce canto da indústria. E festejam poder colocar na mesa produtos que antes eram exclusividade das classes média e alta. O problema aqui é que não sobra dinheiro para os alimentos que complementam essa dieta pobre. Frutas, legumes, peixes, raízes, grãos e cereais integrais não entram no cardápio. Pesquisadores alertam para uma geração de brasileirinhos obesos e mal nutridos.

Não podemos condená-los. Neste nosso Brasil das diferenças, a publicidade conseguiu transformar comida industrializada em símbolo de status. Comprá-los é poder dar aos filhos tudo “de bom e do melhor”. É não deixar a garotada “passar vontade”. É realizar o sonho de uma vida “prática” e “moderna”.

Comida pronta faz de mim e dos meus filhos alguém de valor. Com diabetes, pressão alta, colesterol, intestino preso e acima do peso. Mas, enquanto estiver dando para comprar o biscoito recheado deles, está tudo bem.

Tais Vinha
Artigo publicado no MILC.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Bebê quando acorda de Noite

Querida mamãe,

Esta noite acordei estranhando o silêncio. Não havia barulho algum e pensei que o mundo tinha até acabado e você esquecido de mim. Coloquei a boca no trombone e você apareceu. Ainda bem. Fiquei tão feliz no calor do seu peito que acabei pegando no sono antes de mamar tudo o que precisava. Quando percebi que você ia me colocar no berço, chorei de novo. Mas não tente negar, você estava com pressa para ir dormir outra vez.

Você me deu de mamar novamente, assim, meio apressadinha e depois resolveu trocar a minha fralda. Estava tudo calmo, um silêncio, nós dois juntinhos, tão legal que eu perdi o sono. Você até que foi compreensiva, mas começou a bocejar um pouco e resolveu me fazer dormir. Eu não queria dormir. Talvez precisasse de mais dez minutos ou meia hora, mas você estava mesmo decidida a dormir. Foi ficando bem nervosa e até chamou o papai. Eu não queria o papai e todos fomos ficando muito irritados.

No final das contas, acordei a casa inteira cinco vezes. Pela manhã, nossa família estava com cara de quem saiu do baile. Acho que estraguei tudo. Imagina, você que chegou a dizer para o papai que eu estou com problema de sono. Eu não! Você é que vem me dar de mamar com pressa e daí eu sinto que você não quer ficar mais comigo.

Os adultos têm hora certa para tudo, mas eu ainda não entendi essas coisas de relógio e tarefas estafantes que vocês precisam fazer. Quando meu corpo está com o seu, quero ficar do seu lado sem me separar nunquinha. Do alto dos meus 3 meses, ainda não descobri direito que você é uma pessoa e eu sou outra. Um dia eu vou sair por aí, vou telefonar e posso deixá-la doida para saber o que anda fazendo e, então, você vai entender como me sinto agora. Mas não precisamos dessa guerra, mamãe.

Até lá, já podemos nos entender, inclusive através das palavras. Sinto a angústia da separação, pois acabei de passar por essa experiência. Você também, mas vive tudo isso como uma adulta consciente. Eu ainda estou vivendo no inconsciente. Eu não sei andam tudo é tão novo pra mim aqui fora. Mas eu tenho absoluta certeza de que vou aprender tudinho o que você me ensinar através dos seus sentimentos em relação a mim.

Mamãe, você quer um conselho de bebê? Quando eu chorar à noite, não salte logo para o meu quarto desesperada, como se o mundo fosse acabar.

Espere um pouco, respire profundamente, ouça o meu choro até que ele atinja o seu coração. Sinta seu tempo, realmente acorde e venha me pegar. Me abrace devagar, não acenda a luz, fale bem baixinho e me dê o seu peito para eu mamar. Depois que eu arrotar, mais um pouco só de paciência, pois, nós bebês, somos sensíveis aos sentimentos dos adultos. Se eu sentir que você está com pressa, sou capaz de armar o maior barraco, mas se você esperar até o meu segundo suspiro, quando meus olhos ficam bem fechados, minhas mãos e pernas bem molenguinhas, aí sim você pode me colocar no berço que eu não acordo antes de sentir fome outra vez. À medida que você desenvolver sua paciência, mamãe, eu estarei desenvolvendo minha tranquilidade e nós não teremos mais noites desagradáveis. Apenas noites de mamãe e bebê, que um dia passam, como tudo na vida.

Sempre seu, gu-gu dá-dá!

(Texto distribuído no Curso de Gestantes da Maternidade Nossa Senhora de Fátima, Curitiba, PR)

Texto de Claudia Rodrigues autora do livro "Mamães mais que Perfeitas"

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Alfabetizar precocemente significa empurrar a criança para o mundo adulto antes da hora

É possível alfabetizar uma criança com menos de 7, 6 ou até 5 anos de idade? Sim, é possível alfabetizar muito cedo uma criança. Mas será uma alfabetização significativa? Que comprometimentos podem advir do que entendemos como aceleração da alfabetização? Qual é o ganho efetivo para a criança?

Ouço muitas vezes no consultório os pais preocupados com o futuro caminho profissional definido pelo vestibular de seu filho ou filha de apenas 3, 4, 5 anos. Quando pergunto aos pais o que eles entendem do brincar de sua criança, geralmente respondem que é apenas um passatempo, exceto pelos jogos de raciocínio. Eles consideram importante preparar a sua criança para a vida, para a competição do mundo, para uma profissão que lhe dê “felicidade” – palavra quase sempre atrelada a “dinheiro”.

No entanto, se olhamos a criança quando ela está brincando, fantasiando, subindo em árvores ou correndo com outras crianças, verificamos um universo muito particular no qual ela desenvolve capacidades e uma confiança que, muitas vezes, não encontramos no universo dos adultos bem sucedidos. É por esse motivo que nas escolas Waldorf nós defendemos que até pelo menos os 6 ou 7 anos a criança simplesmente… brinque. O tempo que alguns julgam que ela “perde” por não ser rapidamente alfabetizada, ela na verdade ganha, acumulando forças internas para poder enfrentar o mundo que às vezes tanto preocupa os adultos.

Há quase 100 anos da fundação da primeira escola Waldorf na Alemanha, baseada em uma concepção de mundo denominada de Antroposofia, elaborada por Rudolf Steiner, confiamos cada vez mais nos resultados dessa prática, hoje disseminada em mais de 3 mil instituições em todo o mundo (com cerca de 25 escolas no Brasil, e dezenas de jardins de infância) orientando educadores quanto a essa questão. A antropologia antroposófica reconhece a importância do desenvolvimento físico, anímico e espiritual do ser humano em formação. Os sete primeiros anos da criança, por exemplo, representam uma fase de grande dispêndio de energia para preparar toda uma condição física. Isso se evidencia em um desenvolvimento neurológico e sensorial que tem sua expressão no domínio corporal, na linguagem oral, na fantasia, na inteligência.

Contudo, é na atividade do brincar que essas capacidades são desenvolvidas com alegria e seriedade, com atenção e responsabilidade, com segurança e confiança em um mundo bom, que não exige da criança além de suas possibilidades, ou seja, uma entrada precoce no mundo adulto. E alfabetizar precocemente significa empurrar a criança para o mundo adulto (para o qual ela não está preparada, portanto) antes da hora, um gasto de energia que poderá fazer falta na vida futura dela.

Em minha experiência docente, assim como psicopedagógica, sempre constato que, para uma criança pequena, o código alfabético é estéril, sem cor, sem beleza, pois é abstrato e desconhecido. Mesmo depois de alfabetizada, é o desenho que representa tão significativamente as suas vivências. Podemos verificar tal condição quando estudamos a escrita gráfica de nossos antepassados longínquos e a forma de comunicação de nossas crianças, o desenho. A escrita do povo egípcio, os hieróglifos, é a representação objetiva da realidade, ou seja, a re(a)presentação do mundo sensório pelo desenho. Mas quando em 3.000 a.C. surgiu a escrita fonética dos fenícios, ocorreu um distanciamento dessa forma de expressão, porque as letras não tem mais relação direta com os elementos do mundo circundante.

O desenho da criança é a forma de comunicação natural, semelhante aos antigos egípcios, que revela seu universo infantil com o código que lhe é caro e próprio. Quando a sua criança lhe mostra um desenho que tenha feito, ela está lhe contando como vê o mundo, como se sente, se está alegre ou triste. Não é só a escrita que é capaz disso.

Nas escolas Waldorf a alfabetização pelo código fonético inicia-se pelo desenho, de forma lenta e gradual, a partir dos 6 1/2 ou 7 anos, mas o desenho e a pintura correm em paralelo por toda a escolaridade, como uma forma de comunicação tão importante quanto nossa linguagem escrita.

A pedagogia Waldorf pressupõe que o professor, realizador dessa pedagogia, conheça o ser humano em seu desenvolvimento geral, respeite o contexto sociocultural em que o aluno está inserido e sua individualidade, saiba organizar seu ensino privilegiando a brincadeira, o canto, a dança, para que a alfabetização (e qualquer outro conteúdo de ensino) tenha significado e seja efetiva.

O brincar da criança, seu desenho, sua imaginação e sua criatividade, fazem parte de seu aprendizado sobre o mundo e sobre si mesma. O brincar representa o princípio lúdico que embasa as atividades dinâmicas e artísticas e pode orientar toda a prática docente, mas que também dá significado ao ensino-aprendizado, pois pode expressar o motivo, assim como, o vínculo afetivo com o professor e com o conteúdo.

Termino com uma frase do filósofo Friedrich Schiller: “O homem só brinca ou joga enquanto é homem no pleno sentido da palavra, e só é homem enquanto brinca ou joga”.

Texto de Sueli Pecci Passerini, publicado no caderno Aliás do jornal O Estado de São Paulo, p. J8, 30/9/12. (Versão revista em 9/11/12). Retirado do grupo Pedagogia Waldorf para a Família, no Facebook.

Sueli Passerini é Doutora em psicologia pela USP (Universidade de São Paulo), professora da FAAP e autora de O Fio de Ariadne – um caminho para a narração de histórias, 3a. ed., São Paulo: Editora Antroposófica, 2011. Integra a Aliança pela Infância e é professora dos cursos de pós-graduação em Pedagogia Waldorf no Centro Universitário Italo Brasileiro de São Paulo e Universidade Santa Cecília de Santos.

Fonte: http://www.coisademae.com/2013/05/alfabetizar-precocemente-significa-empurrar-a-crianca-para-o-mundo-adulto-antes-da-hora/

Canta sua Canção

Existe uma tribo na África, onde a data de nascimento de uma criança é contado não a partir de quando eles nasceram, nem a partir de quando elas são concebidas, mas desde o dia em que a criança era um pensamento na mente de sua mãe. E quando uma mulher decide que ela vai ter um filho, ela sai e senta-se debaixo de uma árvore, sozinha, e ela escuta até que ela possa ouvir a música da criança que quer vir. E depois que ela ouviu a música desta criança, ela volta para o homem que será o pai da criança, e ensina a ele. E então, quando eles fazem amor para conceber fisicamente a criança, eles cantam a canção da criança, o tempo todo, como uma maneira de convidá-la.

E então, quando a mãe está grávida, a mãe ensina a música que da criança para as parteiras e as mulheres mais velhas da aldeia, para que quando a criança nascer, as velhas e as pessoas ao redor dela cantarão a canção da criança para recebê-lo. E então, quando a criança cresce, os outros moradores conhecem a canção da criança. Se a criança cai, ou dói seu joelho, alguém pega e canta sua canção para ele. Ou talvez a criança faz algo maravilhoso, ou passa pelos ritos de puberdade, então, como uma forma de homenagear essa pessoa, as pessoas da aldeia cantam sua canção.

Na tribo Africana há outra ocasião na qual os aldeões cantam para a criança. Se em algum momento durante a sua vida, a pessoa comete um crime ou ato social aberrante, o indivíduo é chamado ao centro da vila e as pessoas da comunidade forma um círculo ao seu redor. Em seguida, eles cantam sua canção para ele.

A tribo reconhece que a correção para o comportamento anti-social não é a punição, que é o amor ea lembrança de identidade. Quando você reconhece a sua própria música, você não tem nenhum desejo ou necessidade de fazer qualquer coisa que possa ferir o outro.

E vai este caminho através de sua vida. No casamento, as músicas são cantadas, juntas. E, finalmente, quando a criança está deitada na cama, agora ancião, pronto para morrer, todos os moradores conhecem sua canção, e cantam pela última vez, a música para essa pessoa.

Você pode não ter crescido em uma tribo Africana que canta sua canção para você nas transições cruciais da vida, mas a vida é sempre lembrá-lo quando você está em sintonia com você e quando você não está. Quando você se sentir bem, o que você está fazendo jogos sua canção, e quando você se sente horrível, isso não acontece. No fim, todos nós reconheceremos as nossas canções e cantaremos bem. Você pode sentir um pouco ansioso no momento, mas todos os grandes cantores também tem. Basta continuar a cantar, e você vai encontrar o seu caminho de casa.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Analfabetismo motor

(...) o que se vê são crianças que, em seu tempo livre, ao invés de realizar atividades que movam o corpo, passam horas e horas na frente de uma TV, ou jogando videogame, navegando na internet, fazendo as atividades das diversas disciplinas curriculares e extra curriculares, desenvolvendo um tipo de coordenação motora bem acentuada localizada apenas nos dedos das mãos.

Vendo-se que a criança não tem espaço para brincar em casa, nas áreas de lazer do condomínio, os pais não tem tempo de levá-las para programas de lazer por conta de seus trabalhos e a criança não tem aulas de educação física na quantidade em que necessitaria em sua escola, em quais situações ela poderá desenvolver a sua psicomotricidade? E quais conseqüências este não desenvolvimento acarretará em sua vida?

Os reflexos são visíveis, pois houve nas últimas décadas um aumento gradativo no números de crianças que necessitam de terapia psicomotora, pois apresentam dificuldades de aprendizagem.

As queixas principais de pais e educadores são as dificuldades de atenção, de concentração e problemas de relacionamento, como agressividade, agitação, inibição, dependência, e ainda, perda de interesse com relação ao trabalho escolar por parte das crianças.

Nossas crianças, hoje, carregam consigo o peso por estarem imersas em uma sociedade de consumo, na qual a tecnologia se faz presente e sobrepõe-se às suas necessidades evolutivas e emocionais. Com isso as oportunidades de aprendizagem psicomotora são reduzidas (...)

Leia mais em: http://www.webartigos.com/mobile/artigos/analfabetismo-motor/43774/#ixzz394SSYzie

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Porque ninguém mais quer ser professor?

Por Luíz Cláudio Tonchis

O desinteresse dos alunos pelos estudos, aumento dos casos de indisciplina, violência e atos infracionais nas escolas preocupam os educadores. Além dos baixos salários e as más condições de trabalho, são as principais causas geradoras de angústia, insatisfação, medo, desestimulando-os ao exercício da profissão. Frase como, por exemplo: “os jovens de hoje não tem limites”, “não querem saber de nada”, “não estudam”, “são apáticos”, “sem educação”, tornaram-se comum. As escolas públicas são muito mais vulneráveis a esses problemas pelas suas características: plural, universalizada, composta por uma clientela heterogênea quanto à condição econômica, social e cultural.
A educação básica na escola pública vai mal. As universidades reclamam, dizem que os alunos que chegam as universidades tem informação, mas são incapazes de compreendê-las. De que será a culpa? Da escola? Dos educadores? Do Estado? Dos Jovens? A racionalidade nos indica que a culpa não é dos nossos jovens, afinal, eles não nasceram prontos, foram produzidos assim na configuração política e social em voga. Sabemos que desde que o “mundo é mundo” os jovens sempre manifestaram certa rebeldia. O que mudou foi à configuração da rebeldia. A indisciplina e a violência revelam-se cada vez mais cruel e perversa.
A indisciplina e a violência na escola é a reprodução da violência que ocorrem na sociedade. A escola não é desconectada da sociedade, faz parte dela. As condições políticas e sociais do país, má distribuição de renda, impunidade, corrupção, baixa escolaridade e de renda da maior parte da população são exemplos de problemas sociais que refletem na escola. Além disso, as mudanças sociais contemporâneas ocorridas no modelo de família refletem na formação dos jovens.  Atualmente os pais necessitam trabalhar, as crianças e adolescentes tem ficado cada vez mais aos cuidados de terceiros ou sós, numa fase da vida tão importante para a educação de valores indispensáveis à boa convivência humana. O pior é que, muitas vezes, a família não é referência. Esses problemas se agravam nas famílias de baixa renda, eles não podem pagar uma cuidadora capacitada ou colocar numa escola infantil de qualidade. Faltam vagas nas creches e de projetos alternativos que acolham essas crianças e adolescentes enquanto os pais trabalham.
Pois bem, esses jovens indisciplinados e violentos estão nas escolas, não é a maioria, mas são muitos. Não estão lá para estudar, estão ali porque a escola é um ambiente social deles ou porque são obrigados. No final dos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio os problemas se agravam. Aumentam à falta de respeito, alunos se recusam a fazer atividades e estudarem, atrapalham as aulas, brigas, xingamentos, palavrões, depredação do patrimônio público, bulling e ameaças são exemplos de ocorrências diárias no cotidiano das escolas. A figura do professor, que antes, e não faz muito tempo assim, talvez uns vinte ou trinta anos atrás, tinha a função de professar o conhecimento, hoje não é, mas assim. Hoje, ele tem que mediar conflitos, chamar atenção dos alunos, enfim, tentar primeiro manter a ordem para que a sala de aula tenha condições de fazer o que ele fazia antigamente.
A questão é que manter a ordem da sala está cada vez mais difícil, os professore não obtém êxito. É humilhado, ameaçado e ofendido com palavrões. O bom aluno que tentar defender o professor e a ordem, também é ameaçado.  Outros, menos violentos quando é chamado atenção, olham para o professor com “cara” de deboche e respondem: “tô suave”; “não dá nada não professora”. Ah! Vai me mandar para a diretoria? Vai chamar meus pais? Conselho Tutelar? Boletim de Ocorrência? Fica a vontade “fessora”.  “Não dá nada não”. Suspensão? Que bom vou ficar uns dias em casa e ficar mais na internet, “na brisa”, vou curtir.
Os educadores trabalham em situações extremas de nervosismo, medo e angústia. Preparam aulas maravilhosas e não conseguem colocar em prática. Não é possível produzir se o ambiente e as condições não são favoráveis, o resultado é a baixa qualidade do ensino e não está pior porque muitos não desistem. A maioria é consciente de suas responsabilidades: transformar vidas, mudar a realidade caótica de muitas crianças e adolescentes, prepara-los para serem cidadãos críticos, conscientes, responsáveis e com uma formação moral e ética por uma sociedade melhor. O paradoxo é que eles são responsabilizados pelo fracasso e o insucesso escolar. Angústia dupla. Na hora de receber o salário, outra angústia.
Jovens, educadores e pais são vitimas do modelo educacional político social e histórico. A melhoria da qualidade da educação acontecerá na medida em que o país melhore a qualidade de vida da sua população, valorize a nossa cultura e desvincule do modelo de práticas curriculares eurocentrista, uniformizadora e colonizadora. Por enquanto, qualquer intervenção nas escolas é apenas um paliativo e isso não dispensa qualquer ação dos sistemas de ensino. Por exemplo, capacitar os educadores é muito importante, mas hoje não é esse o principal problema. O maior problema é tê-los. Ninguém quer ser professor com o salário que ganha e com as condições de trabalho vigente e se nada for feito a educação brasileira travará em breve.

fonte: http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/por-que-ninguem-mais-quer-ser-professor-na-escola-publica#comment-374821

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Porque os filhos precisam mais de sua presença do que de seus presentes

Não é nenhum segredo que as crianças adoram brinquedos novos. Elas amam o Natal e aniversários por causa da infinidade de presentes que ganham. No entanto, o melhor presente que qualquer criança poderia receber é a presença contínua de seus pais em sua vida. Como pais, dar nosso tempo, energia e amor para nossos filhos é uma das coisas mais importantes que podemos fazer.

Quando eu era adolescente, eu não entendia o quão abençoada eu era por ter pais envolvidos e amorosos. Tudo o que eu queria eram as roupas e eletrônicos mais modernos, mas eu tive uma experiência que me assombra até hoje.

Eu estava no ensino fundamental e naquela fase com óculos e aparelho novos. Eu achava que se eu pudesse ganhar roupas novas, a tecnologia mais recente, mochila legal, o que quer que seja, iria me ajudar a sentir-me melhor sobre mim mesma. Eu comecei aquela birra de adolescente com meus pais, chorando e me fazendo de vítima. Lembro-me de correr para o meu quarto e me jogar na cama, chorando e desejando que meus pais me dessem o que eu queria.

Nunca vou me esquecer do que aconteceu. Meu pai entrou no meu quarto, sentou na minha cama e me explicou que dinheiro não faria diferença. Mesmo que ele pudesse me dar um novo guarda-roupa, não seria suficiente. Eu ainda estava brava e triste e achei que ele estava errado. Eu acabei descobrindo que eu estava errada.

Não importava se eu tinha as roupas e acessórios mais recentes e caros. Eu tive pais que tiveram um papel ativo na minha vida. Meu pai, apesar de trabalhar o dia inteiro, foi diligente e frequentemente levava minhas irmãs e eu em “encontros” com ele. Minha mãe sempre esteve presente em nossos eventos extracurriculares, ela sentava ao nosso lado enquanto praticávamos piano e sempre nos ajudava com a tarefa da escola. Eu cresci sabendo que meus pais me amavam, cuidavam de mim e queriam o melhor para mim. Eles não precisavam comprar brinquedos caros para ganhar o meu amor, eles fizeram isso através de suas ações.

Há pessoas que experimentam o melhor do melhor enquanto crescem. Elas ganham os brinquedos mais modernos, carros bonitos, os aparelhos mais novos, mas seus pais quase nunca estão em casa. Seus pais não se incomodam em tentar estabelecer um bom relacionamento. Ao invés disso, eles tentam comprar o amor de seus filhos. Conforme seus filhos crescem, eles não têm um relacionamento próximo. Na verdade, eles raramente conversam. Infelizmente, essas crianças aprendem a crescer sem a ajuda de seus pais, e depois não precisam mais de sua família a menos que seja por motivos financeiros.

O relacionamento entre pais e filhos é estabelecido em tenra idade. As crianças aprendem a confiar em seus pais para tudo, desde trocar suas fraldas a dar-lhes comida a cada refeição. Mesmo que os pais trabalhem em período integral fora de casa, eles ainda podem ser presentes na vida dos filhos. Eles ainda podem fazer todo o possível para desenvolver um forte relacionamento com os filhos baseado no amor e compreensão. Aqui estão algumas razões pelas quais a presença é mais importante na vida de seu filho do que o melhor e maior presente.

Os filhos precisam de seu exemplo

A primeira escola de uma criança é o lar. Este é o lugar onde as crianças aprendem habilidades básicas como falar, andar, usar o banheiro, segurar o garfo, etc. Crianças aprendem essas habilidades observando os outros. Os pais dão exemplo aos filhos. Se uma criança vê os pais fazendo algo, ela sente que também pode fazê-lo. Quando você está presente na vida de seu filho, você ajuda a moldá-lo como a pessoa que você sabe que ele pode se tornar. Os filhos olham para você durante toda a vida e suas ações falam muito mais alto do que qualquer quantia de dinheiro. Mostre aos seus filhos, pelo seu exemplo e suas ações, que você quer o que é melhor para eles.

As crianças precisam de seu contato físico

Quando as crianças caem e se machucam, ou quando estão doentes, não há nada como um beijo de sua mãe ou o aconchego de seu pai. Toque físico é algo poderoso. Considere a importância do contato pele com pele com os bebês logo após o nascimento. O contato físico da mãe logo após o nascimento proporciona muitos benefícios físicos e mentais para a criança. Alguns benefícios desse contato incluem um aumento no desenvolvimento do cérebro do bebê, incentivo à amamentação e proteção contra sentimentos de separação.

Toque físico não é algo que afeta apenas recém-nascidos. Tem um efeito duradouro, mesmo quando adultos. Reserve um tempo para aconchegar-se com seus filhos, deixe que sentem em seu colo enquanto você lê histórias e abrace-os antes de dormir todas as noites, etc.

Envolvimento ajuda a construir a autoestima da criança

Quando você está envolvido na vida de seu filho, você o ajuda a ganhar confiança e construir sua autoestima. Quando pais tornam prioridade ir à apresentação do coral do filho ou o jogo de basquete ou até mesmo certificar-se de que sua tarefa está completa, isso traz sentimentos de segurança e amor à criança. Isso é importante para a saúde mental da criança. Quando esses sentimentos não existem, a criança corre risco de ser insegura e ter uma baixa autoestima.

Um relacionamento forte constrói habilidades de comunicação na criança

Quando os pais estão presentes na vida da criança, eles passam mais tempo conversando com a criança. Sendo que, quando uma criança apenas ganha um presente, elas geralmente ficam sozinhas por um período prolongado de tempo. A comunicação com os pais é essencial para o estabelecimento de habilidades críticas. Vocabulário, gramática e até mesmo habilidades básicas de socialização podem ser aprendidos através de uma comunicação constante entre a criança e os pais.

No início, os presentes parecem uma ótima forma de conquistar o amor de seu filho, mas eles nunca substituirão sua presença. Os filhos crescem rápido demais. Não deixe que sua infância passe sem ser envolvido e demonstrar aos seus filhos o seu carinho através de suas ações.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

A questão relevante sobre o grito

amo os bilhetes que recebo de meus filhos - sejam eles apenas rabiscos em uma folha amarela ou escritos em caligrafia perfeita e papel alinhado. Mas o poema do Dia das Mães que recentemente recebi da minha filha de 9 anos de idade foi especialmente significativo. Na verdade, a primeira linha do poema prendeu minha respiração e lágrimas quentes deslizaram pelo meu rosto.

"A coisa mais importante que eu posso dizer sobre a minha mãe é... que ela está sempre pronta a me apoiar, mesmo quando eu estou em apuros."

Mas nem sempre foi assim.

Em meio às distrações da minha vida, comecei uma nova prática muito diferente da forma como eu havia me comportado até aquele ponto. Eu me tornei uma mãe que gritava. Não era sempre, mas era intenso - como um balão extremamente inflado que fazia com que todos ao alcance da minha voz se sobressaltassem com medo.

Então, como minhas meninas, na época com 3 e 6 anos de idade, me fizeram começar com isso? Foi no modo como uma insistia em correr para buscar mais três colares de contas e os seus óculos de sol rosa favoritos quando já estávamos atrasados? Foi na maneira como a outra tentou servir-se sozinha de cereal e derramou a caixa inteira no balcão da cozinha? Foi quando uma delas caiu e quebrou o meu anjo de vidro especial no piso de madeira depois de ter sido avisada para não tocá-lo? Foi por que elas lutavam contra o sono quando eu precisava de um pouco mais de paz e tranquilidade? Ou foi quando brigavam por coisas ridículas como quem seria o primeiro a sair do carro ou quem tem o maior sorvete?

Sim, eram esses percalços normais, questões e atitudes típicas de crianças que me irritavam a ponto de perder o controle.

Isso não é algo fácil de escrever. E também não foi um momento fácil na minha vida para reviver, porque verdade seja dita, eu me odiava nesses momentos. O que acontecia comigo para que precisasse gritar com as duas pequenas e preciosas pessoas que eu amo mais do que a vida?

Deixe-me dizer-lhe o que tinha acontecido comigo.

Distrações

O uso excessivo do telefone, a sobrecarga de compromissos, várias páginas de listas de tarefas, e a busca da perfeição me consumiam. E gritar com as pessoas que eu amava era um resultado direto da perda de controle que eu estava sentindo na minha vida.

Inevitavelmente, acabaria por desmoronar em algum lugar. Então eu desmoronei a portas fechadas na companhia das pessoas que mais significam para mim.

Até um dia fatídico.

Minha filha mais velha subiu em um banquinho e foi atingida por algo que caiu na despensa e ela acidentalmente entornou um saco inteiro de arroz no chão. Com um milhão de minúsculos grãos no chão parecidos com a chuva, os olhos de minha filha se encheram de lágrimas. E foi aí que eu vi - o medo em seus olhos quando ela se preparou para o discurso de sua mãe.

Ela está com medo de mim, eu pensei, com a conscientização mais dolorosa que se possa imaginar. Minha filha de seis anos de idade está com medo da minha reação ao seu erro inocente.

Com profunda tristeza, percebi que eu não era o tipo de mãe que eu queria para meus filhos conviverem e nem era assim que eu queria viver o resto da minha vida.

Dentro de algumas semanas depois desse episódio, eu tive meu momento de colapso e ruptura - foi a conscientização dolorosa que me impulsionou à jornada do Hands Free. Chegara a hora de deixar ir a distração e entender o que realmente importava. Isso foi há dois anos e meio atrás - dois anos e meio de lenta batalha para diminuir a distração e excesso de eletrônicos na minha vida... Dois anos e meio para me livrar do padrão inatingível de perfeição e da pressão da sociedade para "fazer tudo". Ao deixar de lado minhas distrações internas e externas, a raiva e o estresse reprimidos dentro de mim lentamente se dissiparam. Com nova clareza eu era capaz de reagir aos erros e às injustiças de minhas filhas de uma forma mais calma, compassiva e razoável.

Comecei a dizer coisas como: "É apenas xarope de chocolate. É só limpar e a bancada ficará tão boa como se fosse nova."

(Mudei do suspiro exasperado e revirar de olhos para uma boa atitude).

Eu me ofereci para ajudar com a vassoura enquanto ela varria um mar de flocos de cereais que cobriam o chão.

(Em vez de pular em cima dela com um olhar de desaprovação e aborrecimento total).

Eu a ajudei a pensar por onde ela poderia ter deixado seus óculos.

(Em vez de envergonhá-la por ser tão irresponsável).

E nos momentos em que a total exaustão e o choramingar incessante estavam prestes a me derrubar, eu entrava no banheiro, fechava a porta, e dava a mim mesma um momento para esfriar a cabeça e me lembrar que elas são crianças e as crianças cometem erros. Assim como eu.

E ao longo do tempo, o medo que uma vez brilhou nos olhos de minhas filhas quando estavam com problemas desapareceu. E graças a Deus, eu me tornei um refúgio em seus momentos de dificuldade, em vez de o inimigo do qual queriam correr e se esconder.

Não estou certa de que eu teria pensado em escrever sobre esta profunda transformação, não fosse pelo incidente que aconteceu na tarde da última segunda-feira. Naquele momento, senti o gosto da vida sendo esmagada e a vontade de gritar estava na ponta da minha língua. Eu estava chegando aos capítulos finais do livro que estou escrevendo atualmente e meu computador travou. De repente, as edições de três capítulos inteiros desapareceram na frente dos meus olhos. Passei vários minutos tentando freneticamente reverter para a versão mais recente do manuscrito. Quando isso não funcionou, eu consultei o backup da máquina, apenas para descobrir que ele, também, havia dado erro. Quando eu percebi que nunca iria recuperar o trabalho que fiz nesses três capítulos, eu queria chorar, mas mais ainda, queria sentir e extravasar a raiva.

Mas eu não podia porque era hora de pegar as crianças na escola e levá-las para o treino de natação em equipe. Com grande contenção, eu calmamente fechei meu laptop e me lembrei que poderia haver problemas muito piores do que reescrever esses capítulos. Então eu disse a mim mesma que não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer sobre esse problema naquele momento.

Quando minhas filhas entraram no carro, elas imediatamente perceberam que algo estava errado. "O que há de errado, mamãe?". Elas perguntaram em uníssono depois de vislumbrarem meu rosto pálido.

Eu queria gritar: "Eu perdi três valiosos dias de trabalho no meu livro!"

Eu tinha vontade de bater no volante com os punhos, porque sentada no carro era o último lugar que eu queria estar naquele momento. Eu queria ir para casa e corrigir os meus livros - e não transportar crianças para a natação, torcer roupas de banho molhadas, pentear cabelos emaranhados, fazer o jantar, lavar a louça e pôr crianças na cama.

Mas ao invés disso, eu calmamente disse: "Eu estou tendo um pouco de dificuldade para falar agora. Eu perdi parte do meu livro. E eu não quero falar, porque eu me sinto muito frustrada."

"Sentimos muito", disse a mais velha por ambas. E então, como se soubessem que eu precisava de espaço, elas ficaram quietas todo o caminho até a piscina. As crianças e eu cumprimos o nosso dia e, embora eu estivesse mais calma do que o habitual, não precisei gritar e tentei o meu melhor para abster-me de pensar sobre o assunto do livro.

Finalmente, o dia estava quase terminando. Eu tinha colocado minha filha mais nova na cama e estava deitada ao lado de minha filha mais velha para nosso momento noturno de bater papo.

"Você acha que vai conseguir seus capítulos de volta?". A minha filha perguntou em voz baixa.

E foi aí que eu comecei a chorar - não tanto pelos três capítulos, eu sabia que eles poderiam ser reescritos - o meu choro era mais um extravasamento, devido ao cansaço e frustração envolvidos em escrever e editar um livro. Eu estava tão perto do fim. E de repente ter arrancado de mim meu trabalho, foi algo extremamente decepcionante.

Para minha surpresa, minha filha estendeu a mão e acariciou meu cabelo suavemente. Ela disse palavras reconfortantes como: "Os computadores podem ser muito frustrantes", e "Eu poderia dar uma olhada na máquina para ver se consigo consertar o backup." E então, finalmente, "Mãe, você pode refazer o que perdeu. Você é a melhor escritora que eu conheço", e "Eu vou ajudar no que puder."

No meu momento difícil, problemático, lá estava ela, uma paciente e compassiva incentivadora que não pensaria em me chutar quando eu já estava para baixo.

Minha filha não teria aprendido essa resposta empática se eu tivesse permanecido no hábito de gritar. Porque quando se grita, desliga-se o canal de comunicação, que por sua vez rompe o vínculo e afasta as pessoas - em vez de aproximar.

"A coisa mais importante... É que a minha mãe está sempre pronta a me apoiar, mesmo quando eu estou em apuros".

Minha filha escreveu isso sobre mim, a mulher que passou por um período difícil, do qual não se orgulha, mas que a ajudou a aprender. E nas palavras da minha filha, eu vejo esperança para os outros.

A coisa mais importante... É que não é tarde demais para parar de gritar.

A coisa mais importante... É o perdão das crianças, especialmente se elas veem a pessoa que amam tentando mudar.

A coisa mais importante... É que a vida é muito curta para se chatear com cereal derramado e sapatos fora do lugar.

A coisa mais importante... É que não importa o que aconteceu ontem, hoje é um novo dia.

Hoje podemos escolher uma resposta pacífica.

E ao fazê-lo, podemos ensinar aos nossos filhos que a paz constrói pontes - pontes pelas quais podemos atravessar com segurança por sobre tempos difíceis.

Este post foi originalmente criado por Rachel Macy Stafford, e publicado em seu site handsfreemama.com.Traduzido e adaptado por Stael Pedrosa Metzger com permissão do autor.

terça-feira, 6 de maio de 2014

MÃE (DESNECESSÁRIA) - Marcia Neder

A boa mãe é aquela que vai se tornando desnecessária com o passar do tempo. Várias vezes ouvi de um amigo psicanalista essa frase, e ela sempre me soou estranha.
Até agora. Agora, quando minha filha de quase 18 anos começa a dar vôos-solo.
Chegou a hora de reprimir de vez o impulso natural materno de querer colocar a cria embaixo da asa, protegida de todos os erros, tristezas e perigos. Uma batalha hercúlea, confesso. Quando começo a esmorecer na luta para controlar a super-mãe que todas temos dentro de nós, lembro logo da frase, hoje absolutamente clara.
Se eu fiz o meu trabalho direito, tenho que me tornar desnecessária.
Antes que alguma mãe apressada me acuse de desamor, explico o que significa isso.
Ser “desnecessária” é não deixar que o amor incondicional de mãe, que sempre existirá, provoque vício e dependência nos filhos, como uma droga, a ponto de eles não conseguirem ser autônomos, confiantes e independentes. Prontos para traçar seu rumo, fazer suas escolhas, superar suas frustrações e cometer os próprios erros também. A cada fase da vida, vamos cortando e refazendo o cordão umbilical. A cada nova fase, uma nova perda é um novo ganho, para os dois lados, mãe e filho.
Porque o amor é um processo de libertação permanente e esse vínculo não pára de se transformar ao longo da vida. Até o dia em que os filhos se tornam adultos, constituem a própria família e recomeçam o ciclo. O que eles precisam é ter certeza de que estamos lá, firmes, na concordância ou na divergência, no sucesso ou no fracasso, com o peito aberto para o aconchego, o abraço apertado, o conforto nas horas difíceis.
Pai e mãe - solidários - criam filhos para serem livres. Esse é o maior desafio e a principal missão.
Ao aprendermos a ser “desnecessários”, nos transformamos em porto seguro para quando eles decidirem atracar.

"Dê a quem você Ama :
- Asas para voar...
- Raízes para voltar... - Motivos para ficar... " - Dalai Lama

quinta-feira, 13 de março de 2014

Que crianças estamos criando?

Que crianças estamos criando?

O pediatra José Martins Filho, autor de A Criança Terceirizada, avalia os prejuízos causados pela ausência dos pais nos cuidados com os filhos

Para José Martins Filho a mãe é essencial para a criança em seus primeiros anos de vida 


Para alguns são monstrinhos: superativos, mal-educados, incapazes de lidar com frustrações e cheios de caprichos. Para outros, uma legião de pequenos emocionalmente desamparados que, mesmo longe das ruas, sofrem um abandono silencioso dentro de casa. Cabe aos pais evitar esse erro.

O pediatra José Martins Filho viu passar por seu consultório uma verdadeira revolução social nessas últimas décadas. Embora faça questão de acentuar seu apoio às conquistas femininas, ele tem saudades do tempo em que as crianças iam às consultas levadas pelas mães. "Hoje, é comum receber bebês acompanhados apenas da empregada", lamenta. O fenômeno é tema de seu livro A Criança Terceirizada (Ed. Papirus), no qual ele avalia os prejuízos causados pela ausência dos pais nos cuidados com os filhos. Avô duas vezes, Martins lecionou por 35 anos na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde atualmente é pesquisador do Centro de Investigação em Pediatria. Já nos anos 1980, foi pioneiro no incentivo ao aleitamento materno no país, numa época em que as mamadeiras imperavam, e é dono de uma vasta produção científica, que inclui nove livros publicados.

quarta-feira, 12 de março de 2014

A criança terceirizada: as confissões das babás!

Texto de Mariana Sgarioni
É jornalista e já passou por veículos como Superintessante, Folha de São Paulo e Cláudia, entre outros. Paulista, atualmente mora no Rio de Janeiro e divide-se entre as reportagens, a criação de Benjamin, de 3 anos, e a gravidez da pequena Stella, que deve chegar em julho.


A criança terceirizada: as confissões das babás!

Nem preciso dizer que o maravilhoso – e indevassável – mundo das pracinhas e parquinhos vira uma árdua rotina de quem se torna mãe ou pai. Faz parte do pacote. O que ninguém conta é que qualquer observador um pouco mais atento repara que este mundo mostra um retrato fiel de como as futuras gerações estão se formando.
Confesso que no início me sentia meio acuada nesses locais – não que agora esta situação tenha mudado, simplesmente me acostumei a ela. Era como se houvesse um Exército dos Clones, aquele do filme Guerra nas Estrelas, só que encarnado em dezenas de mulheres vestidas de branco, todas vindo na minha direção. A maioria me olhava com olhos de indignação, do tipo “o que você está fazendo aqui?”. Até que, certo dia, uma delas veio falar comigo:
“Quem cuida dele?”, disse a babá, apontando para meu filho.
“Eu. Sou a mãe dele”, respondi, meio sem jeito.
“Ele parece bem cuidado, quem diria, hein… A senhora não tem ajuda? Não acredito que cuida dele sozinha…”
Fiz cara de quem não entendeu nada. A babá estava indignada, veja você, como uma mãe poderia cuidar bem do filho. Ela começou a me contar, então, o que já havia presenciado nas casas em que trabalhou – todas de classe média alta, na zona sul do Rio de Janeiro. Histórias de arrepiar os cabelos. Crianças totalmente abandonadas nas mãos das babás desde recém-nascidas, quando já saem desmamadas da maternidade. Pais que nunca deram um banho nos filhos, não dão remédio, nem comida. Descobri, literalmente, um universo de crianças ricas, órfãs de pais vivos. E que tinham atenção, afeto, e seus cuidados básicos garantidos por aquelas mulheres, capazes de amar os filhos dos outros como se fossem os seus. Muitas, aliás, deixam seus próprios filhos pequenos abandonados nas mãos de terceiros para cuidar das crianças dos patrões. Perdem até seus nomes: respondem apenas pela alcunha de “babá”. Verdade seja dita: existem aquelas que não são tão caprichosas; algumas são rudes e tem atitudes questionáveis com as crianças. Mas é assim que se comportam nas suas casas. Foi assim que aprenderam a educar. E quem delega seu filho, deveria saber disso.
Passei a entrevistar várias delas. Fiz das minhas idas às praças uma espécie de trabalho investigativo. Abaixo, selecionei algumas frases que ouvi (os nomes foram trocados para preservar a identidade das babás e das crianças). Leia com calma antes de julgar esta ou aquela babá. E questione, principalmente, de que maneira estão agindo os pais destas crianças. Apontar o dedo para uma babá é fácil – difícil é descobrir onde está a responsabilidade das pessoas que colocaram aquela criança neste mundo.

“Pedrinho, a babá aqui vai tirar uns dias de folga. Por favor, querido, não dê trabalho aos seus pais. Vou rezar muito para eles não brigarem nem baterem em você. Tchau, te amo.”, Maria, babá de Pedro, 2 anos.

“Caio não come há uma semana. É que a babá dele tirou férias e ele só come com ela.”, Carla, babá-folguista de Caio, 5 anos.

“Segunda-feira é sempre assim: pego a Erika toda assada, em carne viva. Os pais dela não trocam muito a fralda no final de semana, sabe como é, têm preguiça ou esquecem. E a bichinha fica assim, toda machucada. Coitadinha”, Paula, babá de Erika, 1 ano.

“Pois é menina, já tive que levar o Eduardo para a emergência do hospital por causa dessas assaduras, acredita? A mãe dele até hoje não entendeu o que houve”, Josefa, babá de Eduardo, 1 ano.

“Preciso correr, pois hoje tenho reunião na escola da Paula e depois tenho que levá-la ao pediatra. A mãe dela? Ah, ela é muito ocupada e não tem tempo. Eu cuido dela muito direitinho, viu?”, Irani, babá de Paula, de 3 anos.

“Neste fim de semana, levei o Antônio lá para minha casa, no morro. Teve tiroteio, ficamos trancados no quarto. Já cansei de ter que levar criança de patrão para a favela, mas não tem jeito, os pais mandam. A mãe do Antônio disse para eu levar o menino, pois ela iria sair e não tinha quem ficasse com ele.”, Fernanda, babá de Antônio, 4 anos.

“Ontem eu estava indo embora e, antes de pegar o trem, meu coração apertou. Resolvi voltar e peguei Francisco sozinho, vendo televisão no apartamento, acredita? A mãe dele foi comprar pão e deixou o menino lá. E a janela nem tem grade!”, Marlene, babá de Fracisco, 5 anos.

“Não, Luana, querida, a babá não pode entrar na piscina com você, muito menos usar roupas de banho. Aqui no condomínio, é proibido. Tenho que ficar do lado de fora, só olhando.”, Cristina, babá de Luana, de 3 anos.
Para reflexão, deixo aqui um trecho do livro A Criança Terceirizada, do pediatra José Martins Filho:

“Em nossa sociedade já não se pode falar em patriarcado e matriarcado. O que temos realmente, salvo exceções interessantes, é a ausência de definições de papéis, de quem assume o que em relação à família ou aos filhos. As pessoas vivem com medo de ser criticadas, de assumir que tiveram a coragem de fazer uma opção pela família. O que se propõe? A volta da mulher à condição de dona de casa e rainha do lar? Claro que não, o que se propõe é a conscientização da paternidade e maternidade. Crianças choram a noite, nem sempre dormem bem, precisam de cuidados especiais, de limpeza, de banho, alimentação, ser educadas e acompanhadas até idade adulta. Será que todos os seres humanos precisam ser pais? Sejamos sinceros, nem todo mundo está disposto a arcar com esse ônus. Talvez seja melhor adiar um projeto de maternidade, e mesmo abrir mão dessa possibilidade, do que ter um filho ao qual não se pode dar atenção, carinho e, principalmente, presença constante.”